“EU ODEIO MEU JEITO DE CANTAR”, DIZ ERIC CLAPTON.

30 08 2010

Fonte: Mojo Magazine

O repórter Johnny  Walker, da “Mojo Magazine”, conduziu uma ótima entrevista com o lendário guitarrista Eric Clapton. Dentre outros assuntos, ele falou sobre o novo álbum e o som de New Orleans.

Confira com exclusividade no Imprensa Rocker a entrevista na íntegra, já traduzida para o português!

O 19º álbum de estúdio de Eric Clapton será lançado em 27 de setembro. Intitulado de “Clapton”, e com colaboradores que incluem J.J. Cale, Wynton Marsalis e Allen Toussaint, Clapton desencava Blues antigos, um pouco de Jazz e alguns standards, como “Rocking Chair” de Hoagy Carmichael, e “How Deep is The Ocean?” de Irving Berlin, além de “Run Back to Your Side”, a primeira composição própria de Clapton desde 2005. Entretanto, como ele revela nesta entrevista, inicialmente este seria um trabalho intimista, mas que cresceu e se tornou uma coisa diferente. “Se é uma surpresa para os fãs, é porque é uma surpresa para mim também, diz Clapton”. 

Você acha que os fãs de Eric Clapton ficarão surpresos pela escolhas das canções no novo álbum?
Claro que sim (risos). Espero que não desagradavelmente, mas veremos.

De alguma forma, foi um feliz acidente, não?
Sim, ele não é o que deveria ter sido. E provavelmente é melhor do que seria, porque de alguma forma eu deixei acontecer. Então é uma eclética seleção de canções que não estavam no mapa. Você sabe, eu tinha outras idéias. E é por isso que eu gosto tanto dele, porque se é uma surpresa para os fãs, é porque é uma surpresa para mim também.

Há uma canção que você faz com J.J. Cale: “That’s No Way to Get Along”.
Sim. Aquela canção é pré-histórica. É de um cara chamado Robert Willians, dos anos 20 e 30. Acho que ele era do Delta do Mississipi, mas a canção tem um feeling Country, sabe? Quando comecei a cantá-la, J.J. começou a repetir o que eu estava cantando e eu pensei: “O que ele está fazendo?”, porque achei que ele fosse cantar comigo, está entendendo? Mas aquilo foi J.J. colocando aquele coisa de New Orleans na música e ficou perfeito. E a interpretação de Walt Richmond, pianista, do feeling de New Orleans é perfeita. Na verdade, fiquei impressionado de termos obtido um bom resultado nesta canção, porque ela muito difícil de interpretar.

Quando você pega standards, de gente como Irving Berlin, Hoagy Carmichael – este tipo de standards clássicos – o que você pensa?
Bom, primeiro eu pego uma guitarra e descubro como posso tocar aqueles acordes, já que são acordes de piano na maioria das vezes. Como eles soam na guitarra? Como posso aplicar o que eu faço a eles? Eu as toco com uma sensibilidade do Blues, suponho. Eu meio que imagino como Big Bill Broonzy tocaria, como ele fez com “The Glory of Love”, canção de Billy Hill dos anos 30. Ele a tornou um Blues. Então quando comecei com “How Deep is The Ocean”, primeiro aprendi ela na guitarra. Sentado, tocando-a, apenas me divertindo, e desse jeito ela saiu como um blues.

E o que você acha do seu jeito de cantar?
Eu odeio como eu canto. Sempre parece soar como se eu fosse um garoto de 16 anos, vindo de Surbiton. Eu faço o meu melhor para sentir a música. Quando vejo Ray Charles cantar, eu penso “é isso! É assim que se faz”! Ele lembrava de milhares de canções e cantava cada uma como se fosse a música mais importante que ele sabia. Não é como ler a letra ou fazer como outra pessoa. Ele cantava do fundo do coração, todas as vezes, em todas as músicas. E esta é a minha inspiração. Esta é minha influência. Mas eu sou tão cheio de dúvidas com relação ao meu canto, que fica muito difícil eu ter a liberdade que estes tipos de cantores têm.

Mas você soa como se tivesse, em muitas destas canções. “How Deep is The Ocean” é tão relaxante.
Yeah, quase parece que não estou tentando cantar. Eu consigo cantar bem serenamente e fica legal. Eu aprendi isto com J.J.. Você pode ter Ray Charles num extremo, que podia fazer todo tipo de coisa com sua voz, subir e descer oitavas; e você tem J.J. no outro extremo, que cria exatamente a mesma capacidade emocional, só que de uma forma bem minimalista. E ele é tão bom de se escutar quanto. Então há jeitos diferentes de fazer a coisa.

Você esperou muito tempo para fazer algumas destas músicas.
É assim que é. Quando chega a hora de fazer um álbum, é geralmente dois anos após o último. Posso ter algo pressionando para ser dito ou não. Se não tenho, crio alguns subterfúgios. Mas então algo acontece por debaixo. Acho que, de minha experiência, frequentemente estes são os álbuns mais significativos para mim. 

O engraçado é que o “Unplugged” foi um pouco desta forma, porque íamos apenas criar uma noite de música. Foi muito relaxado e sem pressão. Quero dizer, eu pensei “bem esse álbum vai sair de qualquer jeito, então poderíamos apenas nos divertir”. Tínhamos tempo, e como poderíamos preencher aquele tempo? Quero dizer, que melhor forma de abordá-lo do que esta? Não houve nenhum cálculo nele. Foi apenas o que veio a superfície.

Você acredita em destino?
Sim, sim.

Isto lhe dá a liberdade para experimentar ainda mais no próximo trabalho…
Sim. Não há limites. Há duas coisas que gostaria de fazer. Tocar material latino e fazer alguma coisa daquele Jazz de New Orleans. E é isto que me intriga. Será que eu consigo tocar guitarra como se estivesse com Louis Amstrong, com o The Hot Five, sabe? Não seria ótimo?

E não há nenhum plano para diminuir o ritmo? Quero dizer, quando você estava começando, nos anos 60, a idéia de ainda estar tocando aos 60 ou 65 anos era risível. Mas o Blues oferece muitos exemplos do contrário.
Bom, eu nunca gostei da música dos jovens. Eu gosto de música de velho. Quando procuro o que ouvir, eu volto no tempo. A maioria das pessoas está tentando descobrir como consigo sucesso indo nesta direção (risos). Estou indo na direção contrária. Quero encontrar a coisa mais velha que possa tocar.

Isto significa que haverão poucas novas músicas vindas de você?
Não. Quero dizer, eu não sei o que os incita, sabe? A única técnica que funciona para isto, até onde sei, e é o que Dylan faz ou o que Diane Warren faz. Eles sentam em frente a uma máquina de escrever. É um trabalho muito duro. Mas se uma canção aparecer para mim, ótimo. É outro lance do destino. Você sabe, quando a hora chegar e eu tiver algo para dizer, então estará feito. Mas se não sair nada, usarei material de outras pessoas. Montarei na canção de outra pessoa.

Nos conte sobre “Autumm Leaves”…
Ela foi escrita por um poeta francês, chamado Jacques Prévert, e foi transformada numa canção por Joseph Kosma. E então Johnny Mercer a traduziu do francês para o inglês. A versão que me intriga é a de Yves Montand, que foi usada no filme “Les Portes De La Nuit”, de 1946.

Foi algo que demandou muita coragem?
Yeah. Porque você não pode ficar brincando com aquela melodia. Tive que fazê-lo com respeito, cuidado e feeling. Muito feeling. Mas após tocá-la, as portas se abriram para todo tipo de possibilidades. Após ela, nós perguntamos, “bem, o que mais podemos fazer”? Nós fizemos “Love is Here to Stay”, dos Gershwins, após ela, que ainda está guardada. Não há nada que fique meloso se você a toca do jeito certo, com um pouco de groove.

Quando foi a primeira vez que você foi a New Orleans?
Nos anos 70. Mas eu sempre gostei do estilo: você sabe, Huey “Piano” Smith e Frankie Ford. Se lembra de “Sea Cruise”? Quero dizer, o jeito que ele toca no segundo verso é extraordinário também, porque é alguma coisa entre um Shuffle e uma canção de tempo reto. É um conceito rítmico estranho, mas todos eles tocavam assim. The Meters e Alan Toussaint e todos aqueles caras de lá tocavam assim. Isto vem do Jazz de New Orleans – é a árvore da vida por lá. Então me tornei grande amigo de Wynton Marsalis. Ele toca em “How Deep is The Ocean?” neste álbum. E ele toca nas canções de Fats Waller – “When Somebody Thinks You’re Wonderful” e “My Very Good Friend The Milkman”.

O que é essa essência especial do som de lá?
É o que eles são. É a identidade deles. Você abre a porta e está lá na rua. E é antigo, sabe? Eles têm uma percepção diferente da nossa do que é velho. Eu sempre achei que este país tem uma pequena vergonha de sua herança. Você sabe, não deveria ser difícil aceitar que você possa gostar de George Formby ou Gracie Fields…


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10 responses

30 08 2010
raquel

ERIC CLAPTON É UM CARA MODESTO.. HAHAHAHA

No fundo.. sabe que canta muitooooooo e sem contar que é o rei do Blues na guitarra!

vida eterna a essa lenda do nosso rock!
🙂

abraço!

30 08 2010
Gabriel Gonçalves

Pois é, Raquelzinha, eu também acho. Clapton é um dos meus guitarristas preferidos – seja nos Yarbirds, no Cream, no Derek & The Dominoes, Blind Faith, solo, etc. Realmente, Clapton is god!

31 08 2010
Marcos Gonçalves

Eu acho que ele consegue extrair o máximo da voz que tem, cantando realmente num tom intimista que revela a verdadeira emoção por trás da canção. Não sou um especialista em Clapton, mas vejo isso nos vocais de Wonderful Tonight – a melhor balada romântica já feita, em minha opinião. Depois que li a biografia do homi vi que aqueles vocais representam exatamente o que ele viveu à época: a paixão incontrolável pela Pattie Boyd e o alcoolismo. É linda demais aquela música.

31 08 2010
Gabriel Gonçalves

Você tem toda a razão, Marquêra. Apesar de contido, o vocal de Clapton é carregado de muito feeling e extremo bom gosto. Como você disse, músicas como “Wonderful Tonight”, “Tears in Heaven”, “Layla” e muitas outras mostram o poder de interpretação do cara. Abração, meu velho!

2 09 2010
Carlinhos Barros Santos

Sugiro que escutem “LOVE DON’T LOVE NOBODY”, do álbum “BACK HOME”, de 2005. É um clássico!!!!! Clapton canta com o fundo da alma, inspirado pela bela canção original do grupo de Detroit “THE SPINNERS” (lembram-se deles? Emplacaram o hit “It’s a Shame”, em 1970…), e também pelo acompanhamento magistral do saudoso Billy Preston (que deixou de tocar com esse “God” em 2006, e hoje toca para o “Verdadeiro” lá em cima…). E, só pra arrasar, esse mesmo álbum, apesar das críticas recebidas, tem a sensacional versão de “LOVES COMES TO EVERYONE”, de George Harrison, com as backing vocals dando um show!!!! IMPERDÍVEL!!!!!
Mas a melhor de todas as músicas de Clapton continua sendo “OLD LOVE”….. (álbum “JOURNEYMAN”, de 1989).

3 09 2010
Gabriel Gonçalves

Fala, Carlinhos, tudo bem? Cara, você acertou em cheio! As duas canções que você citou são absurdas – me arrepio só de pensar no começo do solo de “Love Don’t Love Nobody”. E “Love Comes to Everyone” é uma das minhas prefridas de George, e com Clapton ficou maravilhosa – eu gosto até da versão da Zizi Possi para ela, rs. O “Back Home” é excelente, aliás, Clapton chegou num nível em que não se pode nem mais suspeitar da qualidade de um novo trabalho. Sem dúvidas, meu guitarrista preferido. Abração, meu velho, e volte sempre!

4 09 2010
Marcos Gonçalves

Cantando para Alice me toquei da pequena injustiça que cometi e que venho aqui reparar: Wonderful Tonight é perfeita, mas não tenho como afirmar que seja melhor que Woman, de John Lennon. Logo, até a próxima lembrança, essas duas músicas são minhas baladas românticas favoritas, ehehe.

4 09 2010
Gabriel Gonçalves

rs… É Marquêra, a briga aí é feia. “Wonderful Tonight” e “Woman” são declarações quase de dependência para com a mulher amada. No Rock n’ Roll existem baladas fenomenais, e eu incluiria nesta briga “Your Song”, de Elton John; “Something”, dos Beatles; “God Only Knows”, dos Beach Boys; “Swayin’ to The Music (Slow Dancing), de Johnny Rivers; e se eu parar para pensar, vão aparecer muito mais. E como vai Alice? Abração, meu velho!

7 09 2010
Marcos

Alice tá naquela confusão. A pirralhinha não é muito de dormir e está acabando conosco. Dará uma ótima rocker, creio eu, ehehe.

7 09 2010
Gabriel Gonçalves

rs… Dará uma ótima rocker, sim. Quando tiver maiorzinha, você pode ninar, ou brincar com ela ao som do “Final Frontier”, rs. Abração, Marquêra!

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