ANOS 80: A DÉCADA EM QUE HOUVE ROCK NACIONAL DE FATO

24 08 2010

Por: Roberto A.

Eventualmente encontramos referências aos anos 80 em artigos espalhados por revistas e pela internet. Muitas dessas referências zombam e criticam daquela década de ouro da música, tentando diminuir sua inegável importância. Falando em Rock brazuca, o que houve de melhor ficou nos anos 80, e neste post tentarei explicar o porquê disto, com conhecimento de causa, pois o primeiro show decente que vi foi aos 13, em 1985, no Rio: Ultraje a Rigor no Canecão, divulgando seu principal trabalho, “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, além de inúmeros outros espetáculos que presenciei ao vivo naquela década – Ira, Titãs, Barão,RPM, entre outros. Mesmo as revistas dos anos 80 davam show nas atuais (saudades eternas da Bizz). Vamos então ao que interessa.

A fase política do Brasil nos 80 passou por etapas interessantes, nas quais prováveis mudanças inspiraram clássicos como “Inútil”, do Ultraje, famosa primeiro por causa da execução dos Paralamas do Sucesso durante o primeiro Rock in Rio – os motivos que a banda teve pra não convidar seu autor,Roger, do Ultraje, para tocar junto com eles continua sendo uma incógnita. Diretas, e várias outras vertentes davam esperança de mudanças no cenário sócio-econômico do país, o que nunca de fato houve.

Falemos, então, dos principais artistas da década de ouro da música nacional, em termos de Rock pelo menos.

RPM
Ainda no posto de maior banda de todos os tempos, falando em Rock nacional; nunca houve nada como o RPM. Beatlemania à nossa maneira. Recordistas em vendagens e em quantidade de fãs e shows. Pouco importava os cortes de cabelo ridículos e ombreiras exageradas de Paulo Ricardo, ou que Schiavion fosse um clone local de Nick Rhodes, menos ainda que Deluqui nunca tenha colocado todo seu talento a mostra, ou que P.A. Fosse um baixinho sorridente (mas com super pegada). O que de fato contou foi o fato dos caras terem sido realmente ótimos na época.

Muita presença de palco, profissionalismo, ambição e ótimas músicas. Claro que eles tiveram suas doses de bobagens pop, como “Olhar 43”, porém tinham músicas realmente relevantes, a exemplo de “Rádio Pirata”, “Alvorada Voraz”, “Partners”, “Revoluções por Minuto”, e experimentaram mesclar o Rock com o Rap antes de todos, com “O Teu Futuro Espelha essa Grandeza”, que contou com participação de Bezerra da Silva. Erraram bastante na sua trajetória, mas isso já é assunto do livro “Revelações por Minuto”. Seguem sendo a mais bem sucedida de todas, para o bem ou para o mal.

LEGIÃO URBANA
Banda preferida das deprimentes rodinhas de violão, a Legião Urbana revolucionou em tantos aspectos que seria difícil enumerar. Um poeta/vocalista dos mais carismáticos já surgidos no planeta, um guitarrista que só estava na banda por ser bonitinho e ter sobrenome famoso, um baterista insípido, e um baixista punk rock que fez toda a diferença, e compunha a maior parte dos arranjos.

Canções de fácil apelo popular levaram a banda ao mega estrelato. Diferente dos Mamonas Assassinas, a banda foi realmente boa, e importantíssima para a história da música brasileira. O interessante é que ao despedir seu baixista original, Negrete, eles assinaram uma espécie de atestado de óbito de canções vitais. O que veio a seguir foi morno, e não teve o mesmo frescor dos três primeiros discos.

PLEBE RUDE
Punk rock nacional na cara. Com letras denunciando tudo que havia de errado na política nacional e na sociedade de consumo, a Plebe mostrou com quantos paus se fazia uma canoa na época, sem concessões ou frescuras, e tiveram suas cotas de hits, como “Até Quando Esperar”, e “Proteção”. Brasilienses que fizeram a diferença.

ULTRAJE A RIGOR
Lírico e engraçadinho, o Ultraje já chegou chutando o pau da barraca, com ótimos músicos e composições espetaculares que misturavam humor e denúncias sociais. Seu primeiro disco (e melhor) foi todo sucesso, uma espécie de Greatest Hits, e Roger foi alçado a condição de ídolo nacional em pouco tempo. Mereceram todo o sucesso conquistado.

TITÃS
Espetaculares em performance. Cabeças pensantes, poetas, bons músicos. Tudo isso e muito mais pode ser dito sobre o octeto (na época) Titãs. Brindaram o Rock nacional com hinos, como “Sonífera Ilha”, “O Que”, “Polícia”, “Bichos Escrotos”, e dezenas de outros hits que são conhecidos até os dias atuais. Contribuíram imensamente com a música popular brasileira.

BARÃO/CAZUZA
Os legítimos Stones locais. Arrebentaram a boca do balão desde que surgiram, com excelentes discos, muita distorção, além de poesia e anarquia genuína. Cazuza e a trupe fizeram a diferença, e pode até hoje ser chamada de “a banda nacional mais Rock n’ Roll”. Um caso raro, no qual a mudança de vocalista não desvirtuou a banda, pois Frejat, além de segurar muito bem a onda, continuou parceiro de Caju, construindo inúmeras canções sublimes para ambas as carreiras.

Poderia falar de muito mais bandas essenciais da época, como Paralamas do Sucesso, Zero e seu pop chique; Finis Africae, com suas experimentações, e de artistas extraordinários que ainda estão na ativa como, Lobão e Kiko Zambianchi. Claro que existiram artistas que não contribuíram com muita coisa, como Biquini Cavadão, Kid Abelha ou Capital Inicial (que continua dispensável), afinal, nada é perfeito.

O que é de se lamentar realmente é que as bandas que vieram na década seguinte não tiveram nenhuma competência para seguir o legado até então brilhante do Rock nacional dos 80. Senão vejamos…

Charlie Brown Jr???? Banda do baleíssimo Chorão, que veio com pérolas como “se não eu quem vai trazer você pra mim….”. Hinos feitos sob medida para a geração malhação. Faça o favor!

Planet Hemp! Pulinhos patéticos no palco, caras que não tocavam absolutamente nada (a não ser o batera), e letras exaltando a erva mor do planeta. Resultado: cana. Merecido. Nem vale à pena mencionar calamidades como Tihuana, Jota Quest, Los Hermanos ou Pato Fu.

Claro, existiriam bandas que se salvaram em meio à mediocridade, como O Rappa, e Chico Science e Nação Zumbi, mas de forma geral os anos 90 deixaram muito a desejar.

Então chegamos ao calamitoso e assustador quadro atual do Rock nacional, no qual os emos imperam. NX Zero, Restart e clones diversos dominando as paradas, com seus cabelos arrumadinhos, suas chorosas músicas – que imploram por um beijinho da namorada como a mensagem padrão. Basta então deixar a reflexão: há salvação para o Rock nacional? Mas, isto já é assunto para um próximo post.

O ponto máximo da ridicularização atual foi visto na apresentação da regravação da música tema do Rock in Rio, na semana passada. Só gente fina! Sandra de Sá, Ivete, e um monte de artistas “não-Rock” misturados a Di, Tico, Dinho, enfim, a nata da atual safra brasileira da música.

Atitude e engajamento é isso. Parabéns Medina, mas por gentileza mude o nome do festival, ao menos. Nem o aguardado “fight” entre Tico e Di rolou.

Punto e Basta!

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17 responses

24 08 2010
Wagner Rosati

Adorei as criticas das bandas novas..eu só sei que não se faz mais rock n roll como antigamente…

24 08 2010
Gabriel Gonçalves

Fala, Wagner! Cara, eu gostei bastante do texto do Roberto – o que não quer dizer que concordei com tudo, rs. Hoje ainda se faz Rock de qualidade, entretanto temos que procurar com cuidado e não esperar que os meios de comunicação nos mostrem – porque, aí sim, só seremos expostos ao que interessa aos outros. Acho que, como toda moda, nos anos 80 houve a moda do Rock no Brasil e, como sempre, 90% do que foi produzido é porcaria. Algumas bandas que o Roberto gosta, por exemplo, eu não gosto: Legião Urbana, RPM, Kid Abelha – quando o Leoni estava na banda, até haviam boas músicas – O Rappa e Nação Zumbi são exemplos de bandas que não curto. Sou grande admirador, entretanto, dos Titãs, Barão, Ultraje, Paralamas, Plebe, João Penca e principalmente do Camisa de Vênus e do trabalho solo de Marcelo Nova. Hoje acho o Cachorro Grande uma banda interessante e Pity, apesar de não gostar do som, é autêntica, faz e fala o quer, e mantém-se verdadeira com ela mesma – eu gostar ou não é irrelevante frente ao fato de que ela faz bem o que se propõe a fazer. Bom, me estendi, mas acho que consegui deixar claro meu ponto de vista. Abração, cara!

24 08 2010
Helton

Acho que o Underground é forte, falta procurar mesmo… falando em underground hahaha minha banda http://www.myspace.com/bandaallundone hahahaha só que cantamos em ingles…. grungera mistura chains/nirvana

25 08 2010
Gabriel Gonçalves

Fala, Heltão! Vou dar um saque no som de sua banda e comento qualquer coisa aqui, meu velho. Abração!

25 08 2010
Helton

fique a vontade!!!

Abraz

25 08 2010
Gabriel Gonçalves

Pode deixar, meu velho! Abração!

26 08 2010
Gabriel Gonçalves

Helton, meu velho, curti demais sua banda, cara! “Everything” e “Fade Away” são hits! Muito bem gravado, ótimas composições, execução mais que do que eficiente… Me surpreendeu, meu velho. Achei o vocal uma mistura do timbre de Kurt (quando está cantando e não berrando) com uns jeitos de Layne Staley (talvez por causa dos backing vocals, rs). Efim, muito do caralho mesmo! Mas conte aí, vocês tocam com frequência? Vi que lançaram o EP, né? E planos para um álbum? Abração, cara, e parabéns!

25 08 2010
Roberto A

Bom dia Gabriel. Só uma observação: no texto eu disse justamente que o Kid Abelha não contribuiu muito para com a qualidade do rock br, e sim, Leoni fazia alguma diferença.

ABRAXX!

25 08 2010
Gabriel Gonçalves

Fala, Roberto! Eu entendi… Só quis exempificar algumas das bandas dos anos 80 – e algumas dos anos 90 – que você citou. E parabésn pelo texto, meu velho. Sempre que tiver material, pode mandar que a gente publica. Abração, meu velho!

25 08 2010
Roberto A

Esqueci de mencionar grandes bandas dos 80 como Hojerizah e Picassos Falsos, e Raimundos que detonou nos 90. Vamos juntos Gabriel.

ABRAXX!

25 08 2010
Gabriel Gonçalves

Fala, Roberto, realmente os Raimundos eram bem legais mesmo. Nos anos 80 tinha uma banda gaúcha, chamada Cascaveletes, que era muito boa também – um lance bem Rock n’ Roll, meio Stones. Tem um vídeo deles no extinto “Clube da Criança” – programa da Angélica na finada Rede Machete – que é impagável. Abração, cara!

26 08 2010
Helton

Então Gabriel…a banda tem 5 anos e sempre vive altos e baixos com saídas e entradas de membros…o núcleo sempre é Samuel (voz/guita) , Ni (guita) e eu (batera)… pra vc ter noção…o baixista que gravou conosco no fim do ano passado já não está mais na banda… e isso acaba dificultando os shows…mas sempre aparece alguns onde algum amigo sempre toca o baixo pra gente….tem até videos lá no http://www.myspace.com/bandaallundone do último show que fizemos nesse esquema de amigo no baixo. As composições no começo eram mais arrastadonas estilo Chains e depois foram evoluindo pra esse grunge rock de hoje… São bem simples, mas é bem o que queremos tocar. Devemos entrar em estudio no começo do ano que vem pra gravar mais um EP… aqui na região a cena é bem ruim, então ficamos meio presos sem muita divulgação além do myspace. Pretendemos fazer umas 50 midias fisica desse EP pra mandar e tentar conseguir shows… assim que tiver te mando um também, estamos prourando gráficas agora. Dessas 6, apenas a Dead Notes é das primeiras da banda, dá pra ver o jeitão mais arrastado dela e os backing vocals a la chains mesmo. Do mais é isso. Que bom que gostou velho, fique a vontade para divulgar nosso myspace hahaha Novidades te deixo a par das coisas. Abração

26 08 2010
Gabriel Gonçalves

Tranquilo, Helton, sei bem como são estas coisas de sapida de integrantes, rs. Curti mesmo o som de vocês! Qualquer coisa é só falar, que a gente ajuda no que puder, meu velho. Abração!

27 08 2010
Karin

Tá, eu sei…vão me crucificar aqui…mas pq ninguem cita o 14 Bis como uma das boas bandas brasileiras???? Alguns vão me dizer q 14 nao é rock, mas quem diz isso precisa ir a um show deles…vão ver q estão pensando errado!! 🙂
Já se vão 30 anos e os caras continuam bem e na estrada…nao pararam em momento algum…

Bom, fica aqui minha sugestão pra quem nao conhece.
Té mais!

28 08 2010
Gabriel Gonçalves

Eu sou suspeito para falar, porque adoro o 14 Bis, mas o lance é que apesar de serem Rock n’ Roll, eles acabaram identificados muito mais com a cna dsa Mpb mineira. Esse foi o grande “problema”…

29 08 2010
Pedro

Porra meu, muito boa a reportagem.
Gosto muito de todas as bandas aí, só não digo o mesmo pra Plebe Rude que nunca ouvi mas vou conhecer!
Só acho que (não que eu não goste, curto muito aliás) RPM foi um pouco super valorizado e Legião foi um pouco subestimado pois por mais que o lado instrumental da banda não tenha nada demais por outro lado as letras são críticas políticas, sociais e ao mesmo tempo poesias.
E por mais que não seja rock dos anos 80, nosso querido Raul Seixas podia tá como um “brinde dos anos 70” na reportagem haha

29 08 2010
Gabriel Gonçalves

Fala, Pedro! O texto, escrito pelo Roberto A., realmente ficou muito bom. Cara, eu te aconselho a buscar algum material da Plebe, porque eles são muito bons, já o RPM e o legião, não curto muito. Quanto ao Raulzito, você está coberto de razão! Ele foi o maior de todos. E mesmo durante os anos 80, quando já não estava mais tantos nos holofotes e vivia pulando de gravadora, sendo recusado, etc, ele lançou muita coisa boa. Abração, cara, e volte sempre!

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