REVIEW: TOM PETTY & THE HEARTBREAKERS – MOJO

23 06 2010

Existem artistas por aí que parecem ter nascido com uma espécie de selo de garantia de qualidade vitalício. Se encaixam neste grupo Paul Stanley, do Kiss; Zakk Wylde, Bob Dylan e um cara que, sabe-se lá o motivo, não é muito conhecido no Brasil: Tom Petty.

Seja com os Heartbreakers – banda que acompanha o músico desde os anos 70 – em sua carreira solo, ou mais recentemente com o Mudcrutch (antiga banda de Petty, que se reuniu em 2008 para lançar um disco), o homem sempre entrega um trabalho de qualidade.

Além de compositor de mão de cheia, Tom Petty também manda muito bem na guitarra, no baixo e no vocal. Suas canções são sucesso ao redor do mundo, especialmente nos Estados Unidos, sua terra natal, onde é considerado uma espécie de herdeiro de Bob Dylan. O curioso é que ambos são muito amigos, tendo participado juntos do projeto Traveling Willburys (banda formada por ninguém menos que George Harrison, Roy Orbinson, Jeff Lynne, além dos dois).

Os hits que Petty já escreveu não caberiam num disco duplo: “American Girl”, “Refugee”, “Breakdown”, “The Waiting”, “Listen to Her Heart”, “Free Fallin’”, “Yer So Bad”, “I Won’t Back Down” e outras dezenas de canções são provas incontestáveis de que este filho da Flórida, Estados Unidos, nunca esteve pra brincadeira. Com um som mezzo Southern Rock, mezzo Folk, com uma pitada de Dylan, Tom Petty tem feito história desde 1976, quando lançou seu primeiro trabalho.

No último dia 15 de junho Tom Petty & The Heartbreakers lançaram “Mojo”, seu mais novo álbum (o último disco de inéditas da banda foi lançado em 2006). Contendo 15 faixas, o disco mostra um artista maturado pelo tempo, com canções absolutamente irretocáveis. Não há um destaque em todo o álbum, pois todas as 15 faixas são destaques.

Vamos ao faixa à faixa:

01. Jefferson Jericho Blues

Tom Petty e companhia já começam mostrando a que vieram. Um Country Rock meio Blues de primeira. A letra fala das desventuras de um cara chamado Tom Jefferson, que se vê apaixonado por uma mulher (como em qualquer Blues que se preze). O instrumental é perfeito, com destaque para o guitarrista Mike Campbell (um dos melhores guitarristas que estão por aí). O começo não poderia ter sido melhor!

Veja abaixo o videoclip desta faixa:

02. First Flash of Freedom

Fantástica! Esta é a expressão perfeita para classificar a segunda faixa do disco. Sabe quando tudo está onde deveria? Bateria e baixo de cair o queixo, trabalho de guitarras maravilhoso, piano irretocável e a interpretação de Petty sempre acima de qualquer expectativa. A canção é uma espécie de Psychodelic Rock, tipo as bandas de São Franciso dos anos 60, mas com um tempero meio Jazz – graças ao trabalho da cozinha. Mais uma vez o artista fala de amor. Aliás, o músico fala deste sentimento com uma pluralidade invejável, longe de ser meloso, e o mais afastado possível do lugar comum. Uma faixa para ouvir a dois (ou a três, se sua namorada for gente fina).

03. Running Man’s Bible

A terceira faixa é um Blues bem para frente, mas com uma aura de Doors – talvez seja o teclado que dê esta impressão. Nela Tom fala sobre aproveitar a vida como ela vier. No refrão ele passa o recado: “ficar vivo é a bíblia andarilho”. Outra canção que mantêm a qualidade do disco bem alta, com um trabalho de bateria que se destaca.

04. The Trip to Pirate’s Cove

Mais uma canção maravilhosa! “The Trip to Pirate’s Cove” tem o mesmo estilo de uma antiga música do próprio Tom Petty, intitulada “A Face in The Crowd”, do disco “Full Moon Fever”. Um andamento mais lento, marcado na caixa da bateria, guitarras dedilhadas e mais uma ótima interpretação do cantor. A letra fala das aventuras de dois amigos na estrada, se divertindo, conhecendo pessoas e aproveitando a vida. Além de tudo, Tom é um grande contador de estórias!

05. Candy

Quando a coisa parecia que não tinha como melhorar, o cara me aparece com esta música. Isto aqui é Rhythm n’ Blues de primeira, baby! Tente ouvir “Candy” e permanecer parado – é impossível. Uma das músicas mais sexy dos últimos tempos! Na letra, Petty fala sobre suas preferências: “não bebo coca-cola, mas com certeza gosto de um velho moonshine” (Nota do redator: Nos Estados Unidos, bebidas alcoólicas destiladas ilegalmente, geralmente em alambiques caseiros, são chamadas de Moonshine). Mais uma grande música!

06. No Reason to Cry

Uma balada de arrepiar. A música mais curta do disco, com 3’04’’, entretanto de uma beleza imensurável. Uma declaração de amor como há muito não se ouvia, com uma melodia calma, baseada em dedilhados no violão. Um solo de guitarra de slide dá a impressão de que o eterno George Harrison resolveu dá um pulo no estúdio para ajudar seu amigo Tom. Singela, bela, de sensibilidade única, são algumas das qualidades desta faixa.

07. I Should Have Known It

O primeiro single do álbum, com videoclip já rodando por aí (confira o vídeo abaixo). “I Should Have Known It” é um Hard Rock bem Led Zeppelin, mas com a impressão digital de Tom e os Heartbreakers, ou seja, mais uma senhora canção. Na letra o artista canta sobre uma mulher, presume-se, que o maltratou por um bom tempo, mas que foi deixada para trás por ele. “É a última vez que você me fere”, exclama Tom. Mais uma música irretocável num disco que, até agora, é nota 10.

Veja o vídeo de “I Should Have Known It”:

08. U.S. 41

Puro Country Rock! Bateria, guitarra, baixo, piano, voz e letra totalmente Country Rock. Outra que não tem como ouvir sem sair dançando. Mais uma vez, a guitarra slide dá o ar da graça, mas agora num estilo mais puxado para o Blues. A letra conta a história de vários personagens, na primeira metade do século passado, e como eles precisaram trabalhar duro. O ponto de ligação entre todos os personagens é a “U.S. 41”, ou U.S. “Route 41”, uma auto-estrada da Flórida, construída em 1926, que faz a ligação entre o Norte e Sul dos Estados Unidos.

09. Takin’ My Time

“Takin’ My Time” é um Blues de primeira linha. A música perfeita para se ouvir de noite, num bar escuro, cheio de fumaça, tomando umas e jogando sinuca. A gaita nesta faixa é a cereja do bolo, que traz mais uma performance invejável do guitarrista Mike Campbell. O arranjo da música é alguma coisa de espetacular, aliás se tem uma coisa na qual os Heartbreakers são mestres, são os arranjos. A banda mostra na prática o que talento e experiência podem fazer. Sobre um instrumental poderoso, Tom destila uma letra simples, porém certeira, sobre desejos e medos na vida. Robert Johnson se orgulharia deste menino.

10. Let Yourself Go

Sabe quando o disco vai chegando na sua parte final e as músicas começam a perder um pouco de qualidade? Pois é, isto não acontece aqui. Após 2/3 do álbum, a sensação que fica é que estamos diante do melhor trabalho de Rock n’ Roll dos últimos tempos. “Let Yourself Go” é um Blues Rock, com uma alma emprestada do The Doors. O teclado e o baixo são os personagens principais da faixa, que traz uma letra bastante sábia. “Quando as coisas ficarem difíceis e você se sentir para baixo, deixe-se levar”, aconselha Tom. Na minha opinião, um psicólogo muito mais competente do que muito dono de diploma por aí.

11. Don’t Pull Me Over

É incrível como Tom Petty passeia por diversos estilos neste disco, mas sempre mantendo sua identidade. “Don’t Pull Me Over” é um Reggae com um toque Psychodelic Rock, mas que em momento nenhum soa forçado ou falso. A fluência de sua banda em vários estilos é um dos motivos para este passeio musical obter sucesso – mais uma vez Mike Campbell detona na guitarra. A melodia cantada por Tom vai grudar em sua cabeça, e no momento que a canção terminar você já vai estar cantando-a.

12. Lover’s Touch

Temos aqui mais uma música carregada de luxúria. Se alguma stripper estiver lendo: a música para seu show é esta aqui, baby. Um Blues meio balada, carregado de sensualidade, do instrumental à letra, passando pelo título e pela interpretação de Petty. “Eu a desejo muito, porque ela tem o toque da amante”, canta o artista, numa canção que transborda urgência sexual. Sem dúvida alguma, “Lover’s Touch” é uma música para se ouvir a dois.

13. High in The Morning

Mais um Blues Rock de altíssima qualidade! Não tem muito o que explicar aqui: ótimo trabalho de guitarras, baixo, bateria e piano; vocal inconfundível de Mr. Petty, e uma letra que conta as encrencas nas quais um jovem se mete por causa da bebida. Canção simples, direta e que passa seu recado. “High in The Morning” é uma aula para muita banda por aí que faz música de 20 minutos e não chega a lugar algum.

14. Something Good Coming

A segunda balada do disco – lindíssima, por sinal. “Something Good Coming”, como pode ser constatado pelo título, traz uma mensagem de esperança envolta numa bela melodia. Tom Petty canta quase sussurrando, às vezes lembrando Dylan, nos presenteando com uma interpretação majestosa. O instrumental mantém o estilo da banda para baladas: simplicidade e bom gosto, do jeito que pede a canção. Não há como evitar especular o motivo desta balada ser a penúltima do disco. Provavelmente é para acalmar o ouvinte e vir com tudo na derradeira canção. O jeito é ir lá conferir.

Veja o clip desta faixa:

15. Good Enough

Bem, “Good Enough” não é um Hard Rock. Não chega nem a ser uma canção uptempo. Ela me lembrou muito “I Want You (She’s So Heavy)”, dos Beatles, em algumas partes. Na verdade, ela é uma das músicas mais intensas que eu já ouví. Mike Campbell faz solos de guitarra aqui que fariam Eric Clapton chorar de emoção, sem falar, mais uma vez, na letra e interpretação de Tom Petty. “Tem algo nela que só eu posso ver, e isto é bom o suficiente para mim”, canta Petty.

Acho que ao final destas 15 faixas, podemos caracterizar o disco da seguinte forma: fazendo um paralelo com os desafios de se achar companhia por uma noite, cada canção neste álbum é um estágio desta empreitada. Começa num bar, então você vê a garota mais linda de sua vida. Conversa vai, conversa vem, vocês ficam juntos, e de manhã cedo você percebe que ela é o amor de sua vida – a canção “Something Good Coming” caracteriza esta parte. Contudo a última canção, “Good Enough” faz você perceber que nunca mais irá vê-la, mas você pensa: “E se um dia como este nunca vier novamente, bem, isto é bom o suficiente para mim”. E você está de volta ao jogo…

Sendo suscinto: nota 10!

Tracklist:

01. Jefferson Jericho Blues
02. First Flash of Freedom
03. Running Man’s Bible
04. The Trip to Pirate’s Cove
05. Candy
06. No Reason to Cry
07. I Should Have Known It
08. U.S. 41
09. Takin’ My Time
10. Let Yourself Go
11. Don’t Pull Me Over
12. Lover’s Touch
13. High in The Morning
14. Something Good Coming
15. Good Enough

Tom Petty & The Heartbreakers:

Tom Petty – Vocal e guitarra
Mike Campbell – Guitarra solo e bandolim
Benmont Tench – Piano, orgão, backing vocals
Ron Blair – Baixo, backing vocals
Scott Thurston – Guitarra, gaita, backing vocals
Steve Ferrone – Bateria

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10 responses

23 06 2010
Andrei

Como é bom ler sobre Tom Petty and the Heartbreakers em português. É a minha banda preferida atualmente, e leio sobre ela majoritariamente em inglês.

Este review é um dos mais completos que vi sobre o Mojo, independentemente da língua, e concordo com praticamente tudo o que foi dito.

Só um adendo: vale ressaltar que este álbum foi gravado ao vivo, no estúdio, com o mínimo possível de overdubs. Quase nenhuma banda faria um trabalho de tal qualidade assim. Ou nenhuma.

Ah, também gostaria de saber por que Tom Petty não é muito conhecido no Brasil. Alguém tem alguma explicação plausível para isso? É uma enorme pena que isso aconteça.

23 06 2010
Gabriel Gonçalves

Obrigado pelas palavras, Andrei. Conheci Tom Petty há muitos anos atrás, por causa do Traveling Willburys, e depois que me inteirei do seus trabalhos com os Heartbreakers e solo virei fã na hora. Realmente sua informação está certíssima – poucas bandas conseguiriam gravar ao vivo um disco de 15 músicas. Quanto a ele não ser conhecido no Brasil me faço a mesma pergunta e sinceramente não sei explicar, mas é mesmo uma pena. Cara, parabéns pelo seu site. Sou um apaixonado por F1 também – marco presença em Interlagos todo ano. Já está adicionado nos meus favoritos. Obrigado mais uma vez, e volte sempre!

24 06 2010
Andrei

Já diz um comentário no meu blog a respeito do seu comentário lá.

Sabia que existe uma música que quase entrou no Mojo e agora está circulando pela internet? Ouça-a aqui: http://www.youtube.com/watch?v=9Pbssa0hARc

24 06 2010
Andrei

Opz, já fiz.

24 06 2010
Gabriel Gonçalves

Erros de digitação acontecem, rs… Abraço, cara!

24 06 2010
Gabriel Gonçalves

Valeu, cara! Pô, esta “Mistery of Love” é muito boa mesmo. Além do cara fazer um discaço com 15 faixas, ainda sobrou material… O homem é imbatível. Obrigado pela dica, Andrei.

26 06 2010
andre

Amo com todas as forças do meu coração esse artista. Conheci Petty através do Jeff Lynne, meu ídolo e produtor de vários de seus trabalhos. Ainda não pude ouvir MOJO, infelizmente não tenho muito acesso a internet, mas meu filho, que é fansasso de Tom Petty está providenciando. E, só para não passar em branco, que belíssima disserção sua. Parabéns mesmo.

26 06 2010
Gabriel Gonçalves

Caro André, realmente Petty e Jeff Lynne são mais que parceiros (aliás, o ELO é umas das melhores bandas da história). Quando puder, ouça o “Mojo”, porque ele está fantástico! Muito obrigado pelos elogios, e volte sempre. Abraço!

13 07 2010
Mauricio Fleury

Ótima crítica…

Minha mãe tinha uma cópia (LP) de “Damn the Torpedoes” e eu gastei muita agulha com aquele disco quando eu tinha uns 10 ou 11 anos. Hoje com 35 continuo fã do Sr. Petty e seus Heartbreakers. Uma pena que não são conhecidos aqui no Brasil o que por razões comerciais impedem sua vinda para estas bandas. O mesmo “fenômeno” ocorre com Billy Joel e muitos outros uma pena. Parabéns pelo site e pelo “review”.

13 07 2010
Gabriel Gonçalves

Muito obrigado pelos elogios, Maurício! Pois é, cara, é desanimador este tipo de coisa. O cara é reconhecido em tudo que é lugar, há três anos fez o show no intervalo so Super Bowl, a maior audiência televisa do planeta, e aqui nada. Já pensei em viajar várias vezes pra um ver um show dele, mas ainda não consegui. Espero poder fazer antes dele se aposentar, rs. O “Damn The Torpedoes” é uma ótima pedida para angariar fãs pro homem, rs, grande disco! É isso, Maurício, muito obrigado mais uma vez, e volte sempre!

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