REVIEW: SLASH – ÓTIMO TRABALHO APESAR DOS EQUÍVOCOS

14 05 2010

Muito se especulou sobre este primeiro trabalho solo do Mr. Cartolas (não confundir com mestre Cartola. Esse é história para outro blog). Alguns jogavam as expectativas no alto, enquanto outros já detonavam antes mesmo do bicho ser lançado, fenômeno até normal em se tratando do universo Guns n’ Roses.

Desde que saiu de sua banda mais famosa, Slash meio que se tornou o “guardião” da música do Guns, o cara equilibrado que foi de encontro ao super-ego de Axl Rose e suas frescuras. Depois da dissolução da formação clássica, Axl entrou num período de silêncio que durou muito tempo, enquanto Slash sempre esteve por aí, contando a sua versão dos fatos.

Isto é o que mais me inquieta e que me impede de concordar com a maioria das pessoas que tem certeza de que Axl é o vilão da história e Slash o mocinho. Pode até ser verdade, mas eu não creio. O grande erro de Axl, em minha opinião, foi ter sumido. Ele poderia ter dado sua versão dos fatos, contradizendo Slash ou concordando de vez em quando, mas a partir do momento que ele escolheu o silêncio, deixou para o ex-companheiro a tarefa de contar a história.

Não prefiro Axl à Slash. Sou fã do Guns n’ Roses (tão fã que eu fui um dos poucos que adorei o Chinese), entretanto já passei dessa fase de “meu Beatle preferido é esse”, portanto não acredito nessa estória. Para mim os dois (sem esquecer de Duff também) tem culpa no cartório e pronto!

Acabei me alongando mais do que queria, mas isto é uma das coisas que o Guns causa na gente. Pode-se dizer tudo sobre a banda, menos que ela não desperta nenhum tipo de sentimento nas pessoas. Inclusive esta foi sempre o marketing deles: a banda que os jovens amavam e os pais odiavam. Dois sentimentos extremos, dois lados da mesma moeda.

Bom, os anos passaram, Slash lançou dois ótimos discos com sua outra banda, a Slash’s Snakepit, voltou ao topo das paradas com o Velvet Revolver, Axl finalmente lançou o Chinese Democracy e, neste ano, Slash soltou seu primeiro álbum solo, intitulado, muito criativamente, de Slash.

Seguindo a fórmula consagrada por Santana, de escolher um vocalista diferente para cada faixa do disco, Slash – e vários convidados VIP – provou que é mais que um guitarrista de Hard Rock: ele é um guitarrista. O álbum mostra várias de suas facetas, indo do Hard Rock ao Pop, do Punk ao Trash Metal. Um disco com altos e baixos, no qual os bons momentos superam os não tão bons.

Vamos ao nosso faixa a faixa:   

1. Ghost (Ian Astbury/Izzy Stradlin): Ghost começa com um jeitão de The Cult, ex-banda do vocalista nessa faixa, Ian Astbury, e depois descamba num Hard Rock muito bom, com um riff pegajoso. O refrão volta ao estilão The Cult, muito bom por sinal, e pega na primeira ouvida. No solo, Slash mostra a velha intimidade com sua Les Paul. Grande abertura! Vale destacar que o companheiro de Slash na formação original do Guns, Izzy Stradlin, toca nessa faixa também.

2. Crucify The Dead (Ozzy Osbourne): Esta começa com um dedilhado de guitarra e um solinho de introdução. Quando Ozzy começa a cantar, parece que estamos a ouvir alguma coisa dele entre o No More Tears e o Ozzmosis. Quando a banda toda entra no refrão, dá um clima mais moderno, que logo retorna ao dedilhado. Slash sola nesta como se não houvesse amanhã. Solo rápido, mas cheio de feeling. A bolachinha parece promissora!

3. Beautiful Dangerous (Fergie): Aqui está a música que mais causou controvérsia entre os fãs mais radicais. Slash teve a audácia de convidar Fergie, do Black Eyed Peas, para cantar. O resultado surpreende, para desespero dos extremistas. A moça sabe cantar Rock n’ Roll! A voz dela me lembra uma Joan Jett de voz mais limpa, mas com uma pegada boa. O refrão também gruda de primeira, com a Fergie indo nuns tons que fariam King Diamond ficar com inveja. O solo de Slash aqui é bom, mas não é nada fora de série.

4. Back from Cali (Myles Kennedy): Essa começa com um riff bem sacado de Slash e o vocal entra acompanhado só da guitarra. No refrão a banda toda entra e seu cérebro é esmagado contra a parede. Depois de sujar todo seu quarto com seus miolos, a música segue em frente com riffs espetaculares e vocal muito bom. Não conhecia esse cidadão, Myles Kennedy (integrante da banda Alter Bridge), mas o cara é bom! Tem um vocal meio bluesy, carregado de feeling. Slash faz um solo rápido que acaba no riff de introdução e sobe para o refrão de novo.

5. Promise (Chris Cornell): Essa conta com o super hypado vocalista Chris Cornell, ex-Audioslave e ex-Sounsgarden. A música tem uma levada bem pop e Cornell faz seu trabalho muito bem feito, mas não chega a ser uma canção inesquecível. O refrão melhora um pouco as coisas e o solo de Slash a levanta ainda mais. No final da música você já está cantando o refrão, no entanto tem-se a impressão que esta dupla poderia ter rendido muito mais.

6. By The Sword (Andrew Stockdale): Esta é o single do disco, e já tem clip por aí. Começa com um violãozinho meio country e o Andrew Stockdale, do Wolfmother, entra no vocal. Esse também canta muito! A música vai seguindo acústica até que entra um riff maravilhoso de Slash, que vai levando a música. Slash faz um solo que começa meio Peter Frampton, abusando do wah wah, e que depois vira um trabalho digno dos mais clássicos dele. O maluco toca! A escolha desta faixa para single foi acertada: um Hard dos bons, com solo fantástico e vocal em cima. Ponto para Slash.

7. Gotten (Adam Levine): Slash que me perdoe, mas já comecei a ouvir essa música com o pé atrás, porque eu não suporto o vocalista: Adam Levine do Maroon 5. O pior de tudo é que eu estava certo. A música é muito fraca, apesar dos solos de Slash serem bons. Um popzinho muito do vagabundo, com uma letra vergonhosa. No meio, Slash ainda dá uma levantada na canção, mas não tem como engolir. A vontade que dar ao ouvir isso é de desligar o som… aliás é isso que vou fazer. Desculpem, mas a resenha dessa faixa fica por aqui. Quem quiser que vá perder cinco minutos de sua vida que jamais serão recuperados. Porra, Slash!

8. Doctor Alibi (Lemmy Kilmister): Tenho a impressão que Slash jogou a música anterior alí só para vir antes dessa, e conseguir amenizar o problema. E o cara conseguiu: quem ficou enojado com a anterior recupera as forças aqui. Lemmy “Fucking” Kilmister do antológico Motorhead canta essa, e pra variar, detona. O cara é sinônimo de Rock n’ Roll! Slash mostra um solo de arrepiar os cabelos de Rob Halford! Meus deus, quanta exclamação aqui! Mas a música merece, e muito. São três minutos do que há de melhor nessa bagaça que a a gente chama de Rock. Essa vai ter repeat.  

9. Watch This (Dave Grohl/Duff McKagan): Watch This traz no baixo o ex-Gunner e atual companheiro de Slash no Velvet, Duff McKagan, e na bateria o Phill Collins do século XXI, mais conhecido como Dave Grohl (ex-Nirvana e atualmente no Foo Fighters). A música, que é instrumental, tem a cara do Guns na época dos Illusions, com Slash solando feito um condenado em cima de várias mudanças de andamento, climas e harmonias. A música tem um pouco de Metal, um pouco de Punk e até uma pitada de Progressivo. São três minutos e meio de ótima música instrumental.   

10. I Hold On (Kid Rock): Com Kid Rock no vocal eu não sabia o que esperar, mas a música começa promissora, lembrando Running With The Devil, do Van Halen. Depois descamba para uma balada, acompanhada por uma guitarra com leve distorção e refrão bem legal. Uma boa balada! Kid Rock desempenha bem seu papel de vocalista, fazendo da canção uma ótima pedida para os casais. Os backing vocals no refrão fazem toda a diferença, e Slash deixa para posteridade um belíssimo solo. Tenho que admitir que a música me surpreendeu.

11. Nothing To Say (M. Shadows): Essa começa bem Black Sabbath da era Ozzy, com um grande riff. Caralho! Depois ela vira uma canção que entraria em qualquer bom disco do Megadeth. Quem faz as vezes de vocalista agora é o M. Shadows da Avenged Sevenfold. A música tem um clima de Backyard Babies (quem não conhece a banda corra atrás, porque é muito bom). Só o vocal que é limpo demais, no entanto não compromete. O cara até dá uns gritos mais adiante, mas a voz limpa predomina. Slash sola na velocidade da luz e música dá uma pequena mudada, mas logo volta pro Trash. A faixa termina como começou, meio Sabbathiana.

12. Starlight (Myles Kennedy): Mais uma com o Myles Kennedy no vocal. A intro tem um riffzinho no estilo dos Stones na década de 70. Sim, estamos aqui diante de mais uma balada, mas uma balada muito bonita e bem feita, longe de ser piegas. O cara realmente canta muito e no refrão manda uns agudos de respeito, enquanto a distorção volta com força. Podemos chamar essa de uma Power Ballad até. O trabalho de guitarras de Slash aqui é fenomenal, tanto nas bases quanto no solo. E que solo! Talvez o mais bonito de todo o disco. O refrão é cantável de primeira, e não se engane: você vai sair cantando ele.

13. Saint Is A Sinner Too (Rocco DeLuca): Saint is a Sinner Too traz Rocco DeLuca, vocalista e líder da Rocco DeLuca & the Burden, uma banda Indie, nos vocais. A música é uma balada acústica bem fraquinha, mais pelo vocal do que pela música em si. Slash faz um solo muito bom no violão aqui. Esta não chega a ser um lixo total como a Gotten, mas poderia ter ficado de fora do disco sem problema nenhum. É… chegando ao fim do disco eu tenho a absoluta certeza de que colocar as canções mais fracas antes de uma arrasa-quarteirão é uma estratégia de Slash. Depois de Gotten (aaaargh) veio Dr. Álibi, com Lemmy; depois desta aqui vem We’re All Gonna Die, com ninguém menos que o imortal Iggy Pop. Vamos a ela, então!  

14. We’re All Gonna Die (Iggy Pop): Coisa linda! Já começa com um riff matador. Isso é Rock n’ Roll e a gente gosta, porra! Entra na estrofe e a música dá uma acalmada, mas como estamos falando de Iggy Pop, é lógico que logo a porrada volta e cai numa das melhores letras da história: “We’re all gonna die, so let’s get high”, berra Iggy. Um hino ao hedonismo! Slash faz um solo digno da música, que segue uma linha bem The Stooges. Não havia melhor maneira de encerrar o disco: literalmente um Gran Finale.

Após as 14 faixas, não tem como não elogiar o disco. Tentar usar aqueles dois equívocos para diminuir a obra é dar importância demais para dois vermezinhos que não agüentariam dois minutos com Lemmy, Iggy, Duff e companhia. Slash fez um trabalho digno de sua história e nos presenteou com uma bela obra, que vendendo ou não, sempre será comparado a grandes bolachas da história do Rock. Valeu, Slash!

Anúncios

Ações

Information

4 responses

14 05 2010
Marcos

Sobre a versão do Slash sobre “os fatos”, a de se ressaltar que o Slash tem uma banda com ex-integrantes do Guns e nenhum deles nunca desmentiu nada do que o Slash falou, alguns (como o Duff) inclusive elogiaram o livro dele por exemplo e alguns até acrescentaram críticas (Matt Sorum e Izzy) ao comportamento destrutivo do Axl. A real, é que o Axl é insuportável, apesar de talentoso. Sobre a resenha, ficou muito boa, seus comentários foram precisos. Parabéns.

14 05 2010
Gabriel Gonçalves

Caro Marcos, obrigado pelos elogios. Quanto à rixa entre Slash e Axl, ainda assim fico com o pé atrás, porque Slash, Duff, Izzy e companhia já eram adultos, com personalidade, e chegados numa briga, então dizer que Axl é o culpado pelo fim da banda é chamar os outro integrantes de bunda mole, rs, que disseram amém a todas as vontade de Axl. E bunda mole os caras não são, rs. Não nego que Axl é intragável quando quer (esperar quase 4h em pé para o FDP entrar no palco esse ano foi foda), mas acho que o Guns acabou, porque cada tava indo prum lado mesmo. É a mesma discussão sobre os Beatles: quem acabou com a abnda foi Yoko Ono ou os caras já não tavam mais tão a fim de ficar juntos? Na real, só eles sabem a verdade… Mais uma vez obrigado pelos elogios, e volte sempre!

14 05 2010
Marcos Gonçalves

Concordo com o fato do Axl ser um sujeito complicado e de difícil trato, mas não podemos esquecer do vício em drogas pesadas de Slash e outros membros do Guns, na época, que certamente desequilibraria qualquer ambiente. Isso ficou claro pra mim na biografia do hômi. Quanto ao novo álbum, acabei de ver o video da faixa 6. Sou fã do segundo disco do Wolfmother e acho o Stockdale um vocal instantaneamente clássico. Gostei da música, embora não tenha ADORADO, numa primeira ouvida. Vou providenciar o disco para ouvir e comentar no todo. Ah, e meu Beatle favorito é o Pete, ehehehe.

14 05 2010
Gabriel Gonçalves

Você tá certíssimo, Marquêra. Um ambiente daquele era um barril de pólvora. Pegue mesmo o disco que tá legal (só pule as faixas que eu falei aí na resenha, heheeh). Acho que vou ficar do lado de Marceleza (como sempre) quando ele diz: “Meu Beatle preferido é Yoko Ono, que acabou com eles no auge. Se ela não tivesse existido eles iriam estar gravando com Miachel Jackson e o diabo…”, rs.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: