REVIEW: MUDCRUTCH – A VERDADEIRA ESCOLA DO ROCK

9 05 2010

Era apenas um dia ordinário na ensolarada Califórnia de 1970, mais precisamente na cidade de Gainsville, quando dois garotos – um baixista e um guitarrista – recém saídos de uma banda chamada The Epics resolveram montar uma nova banda juntos, que batizaram de Mudcrutch. Logo conseguiram um bom baterista e um guitarrista meio doidão, e começaram a tocar pela cidade um Southern Rock com um pezinho no folk que chamou a atenção.
 
Após dois anos o guitarrista fundador decide pular fora do barco, oportunidade perfeita para o baixista trocar as quatro cordas pelas seis. Conseguem um novo baixista – e um tecladista à tira-colo – e continuam na estrada, quando em 74 assinam com a gravadora Shelter.
 
Agora sediados em Los Angeles, a banda lança seu primeiro single, um retumbante fracasso de vendas. Mais uma vez ficam sem baixista, problema que logo foi contornado, no entanto em 76 a gravadora corta seu vínculo com a banda, causando seu fim.
 
Esta poderia ser a história de milhares de bandas de Rock n’ Roll ao longo dos tempos, porém esta não acaba aqui. O baixista lá do começo da história é nada mais nada menos do que o Tom Petty, o cara que depois deste fracasso montou os Heartbreakers junto com o guitarrista doidão e o tecladista do Mudcrutch. Juntos venderam milhões de álbuns, lotaram milhares de shows e conquistaram milhões de fãs ao redor do globo.
 
Mas eis que em 2007 o já senhor Tom Petty, sabe-se lá por que cargas d’água, resolve juntar sua velha banda novamente. Com a formação original – tendo o próprio Tom Petty voltado ao baixo – e seu amigo e co-fundador do Mudcrutch, Tom Leadon, de volta, eles fazem alguns shows pelos Estados Unidos, e ainda engasgados pelo fracasso da década de 70, resolvem gravar um disco.
 
Em 29 de abril de 2008 saiu o auto-intitulado Mudcrutch, que trouxe 14 faixas – entre velhas e novas composições – sendo uma instrumental. E leitores, irei lhes dizer uma coisa: não há nada aqui que possa ser repreendido, melhorado ou aperfeiçoado. Produção no lugar, composições belíssimas, músicos mais do que íntimos com seus instrumentos e competência… muita, quilos, toneladas de competência.
 
Vamos ao faixa a faixa:

Shady Grove: Dedilhado imortalizado pelos Byrds. Um folk rock bem pra frente, com harmonias de vozes muito bem colocadas. A sensação que tive ao ouvir essa música foi de estar viajando num vagão de um trem velho, cruzando uma daquelas estradas de ferro americanas que tanto vemos nos filmes. Começo muito bom.

Scare Easy: Música escolhida como primeiro single do disco, com clip já rodando por aí. Scare Easy já tem mais um jeitão do trabalho que Tom Petty realizou ao lado dos Heartbrakers. Lembra canções como Into The Great Wide Open, o que é sempre ótimo! O Refrão gruda na cabeça na primeira ouvida e Mike Campbell faz um trabalho primoroso aqui, o que não é surpresa nenhuma.

Orphan of the Storm: Mais uma que poderia ser do Byrds, banda que Tom Petty tem grande admiração. O tipo de música perfeita pra chamar aquela gatinha pra dançar com você.

Six Days on the Road: A ordem aqui é Rock n’ Roll! O tipo de música que te lembra porque você gosta tanto desta porra de Rock. Quem não tiver vontade de sair pulando pela casa ao ouvir essa, que procure ajuda médica.

Crystal River: Pode-se chamar essa música de balada, mas não de melosa. Sinceramente eu não entendo como Tom Petty e seus diversos projetos não obtiveram aqui no Brasil o mesmo sucesso que têm lá fora. O cara é muito acima da média como compositor, arranjador, letrista e instrumentista. Essa música é de uma sensibilidade absurda, e nem seus 9 minutos e meio deixam a audição cansativa. Até agora o disco é nota 10.

Oh Maria: Balada folk cheia de feeling e harmonia levada basicamente numa guitarra dedilhada e no violão. A voz e interpretação inconfundível de Tom Petty dão vida à música.

This is a Good Street: This is a Good Street volta ao Rock n’ Roll, com a cozinha mostrando como é que se faz. Estamos na metade do disco e o bicho já está se tornando um clássico em potencial.

The Wrong Thing To Do: Mais um rock dos bons! Essa parece com algo que os Stones fariam na fase Exile on Main Street. Refrão com harmonias vocais muito boas. É incrível como esse tipo de recurso dá outra vida à música. Guitarra cortante, baixo no talo, piano estremecendo e a bateria assumindo a locomotiva deste trem descontrolado.

Queen of The Go Go Girls:  Novamente quem assume o vocal nessa é o guitarrista Tom Leadon, e não desaponta. Queen of the Go Go Girls é algo entre o Folk e Southern Rock. Harmonia bem pop – dos bons – solo de piano e guitarra, num clima bem velho-oeste.

June Apple: Um número instrumental desta vez. Mais um folk, só que agora com o teclado hammond dando o tom. Depois da intro, as guitarras assumem e daí pra frente revezam os holofotes com os teclados.

Lover of the Bayou: Agora temos um cover dos Byrds, mas num arranjo “Tom Pettyano”. Mais uma naquele estilão que ele seguiu em seus trabalhos com os Heartbreakers. As guitarras mais uma vez estão em plena sintonia e o teclado, discreto, faz um background de arrepiar.

Topanga Cowgirl: Canção com jeitão daquele Rock n’ Roll mais pop do final da década de 60, como Marmalade, só que mais cru. Ótimas melodias.

Bootleg Flyer: Essa aumenta a velocidade e traz aquele Tom Petty que a gente conhece: melodias vocais que pegam na primeira ouvida, guitarra rickenbaker 12 cordas mandando ver e bateria reta, curta e grossa, como em qualquer bom Rock. O trabalho de guitarras dessa faixa é uma coisa de louco. Tom Leadon e Mike Campbell, vocês são foda!

House of Stone: Um folk meio Blues acústico encerra a bolachinha. Pra variar, a melodia do vocal é cantável de primeira. Solinho de violão esperto, piano completando os espaços da voz, baixo e bateria marcando o tempo. Me responda uma coisa: como isso pode dar errado?
 
Conclusão: compre – por algum milagre divino saiu em versão nacional inclusive – pegue emprestado, roube. Não importa o que você tenha que fazer, dê um jeito de escutar esse disco. Ele é uma aula de Rock n’ Roll! É uma pena que não se possa condensar este disco em comprimidos e mandar essas bandinhas modernosas tomarem. No entanto algo me diz que eles iriam preferir em supositório…


Ações

Information

4 responses

10 05 2010
Marcos Gonçalves

Nunca ouvi o Mudcrutch. Esse disco de 2008 deve ser uma boa pedida pra conhecer a banda, uma vez que deve causar menos estranheza aos não iniciados com os discos dos anos 70.

10 05 2010
Gabriel Gonçalves

Esse disco é a única pedida, rs. Lenaçaram o disco, fizeram uns shows, e todos voltaram aos seus respectivos projetos. Mas ouça mesmo, meu velho, porque é muito bom.

11 05 2010
Andréia

amei o post do MESTRE JOHNNY RIVERS, muito bem elaborado e de bom gosto…. quer dizer que akela fila era para o camarim?

11 05 2010
Gabriel Gonçalves

Cara Andréia, muito obrigado pelos elogios. Pois é, aquela fila era para o camarim, sim, rs. Ficamos um tempinho na fila esperando, mas no fianl conseguimos a tão cara foto com Johnny. Obrigado pela visita e retorne sempre.

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