

Deus pode não ser brasileiro, mas esteve em São Paulo nos últimos quatro dias (que Eric Clapton me perdoe). Sem dúvidas, a melhor palavra para descrever a passagem do ex- Beatle pela capital paulista é “catarse”. Foi literalmente uma catarse coletiva que durou três horas no dia 21 de novembro e outras três horas no dia seguinte. De repente a Beatlemania pareceu ter invadido São Paulo – para onde se olhava, via-se gente gritando, chorando, pulando, cantando, e qualquer outro gerúndio que exista na língua portuguesa.
Após 17 anos, o velho Macca estava de volta ao Brasil, para três shows – 7 de novembro em Porto Alegre e 21 e 22 de novembro na capital paulista -, fato que causou rebuliço mesmo antes da confirmação das apresentações. O messias havia chegado!
Tenho certeza que todos que foram ao Morumbi têm sua própria epopéia para a compra dos ingressos, espera nas filas, etc, mas aqui vou contar a minha experiência, que se iniciou no sábado e terminou na madrugada de terça. Não farei uma resenha comum dos shows, mas irei relatar a minha experiência no olho do furacão. Preparados? Então vamos nessa!
No sábado, 20 de novembro, acordei na capital Baiana, onde estava há uma semana visitando amigos e familiares. Meu vôo estava programado para aterrissar no aeroporto de Congonhas às 16h30 – daria tempo suficiente para chegar, ir para casa, tomar um banho e trabalhar (sim, trabalhei no sábado à noite) – mas então tudo começou a dar errado. Às 16h20 o avião em que estava já sobrevoava Congonhas, entretanto passou uns 30 minutos voando em círculos, no que imaginei ser devido a um intenso tráfego aéreo. Ledo engano: “Boa tarde senhores passageiros, aqui quem fala é o seu comandante. Infelizmente nosso avião está com um problema técnico, e só temos um flap funcionando. Estamos nos dirigindo ao aeroporto de Guarulhos, onde pousaremos”, foi a mensagem que saiu dos auto-falantes. A merda é que eu tinha sonhado com dentes na noite anterior, e alguém tinha me dito que sonhar com dentes significa “morte” – pense na merda… E o pior de tudo é que quando o comandante falou isso, a única coisa que conseguia pensar era: “Previously, on Lost…”. No final, conseguimos pousar (ou vocês estariam lendo o primeiro blog psicografado da rede).
Domingo, dia do primeiro show, acordei cedo apesar de ter chegado de madrugada em casa. Tínhamos marcado com uma turma grande de fazermos a concentração para o show numa hamburgueria chamada “John & Paul”, que fica na Vila Madalena e é temática dos Beatles. Lá começamos o aquecimento do show, que significa cerveja e um prato de hambúrguer e batata frita. Às 16h pegamos o caminho do estádio do Morumbi. Chegamos lá bem rápido e festa começou: correndo o risco de ser achincalhado aqui, a maior (ou a mais animada) torcida do Morumbi naquele dia era do meu Bahêa. De todos os lados surgiam camisas e bandeiras do esquadrão de aço. Na fila, nos juntamos aos outros amigos baianos que estavam por lá (todos secando o Vicetória, que naquele instante jogava contra o Corinthians). Ah, a cerveja continuava fluindo…
Entramos no estádio um pouco depois das 18h e a ansiedade já estava descontrolada. Por sorte, a aparição do próprio Deus, que estava prevista para às 21h30, começou às 21h40 – não foi uma pontualidade britânica, mas foi perto (uma pontualidade escocesa, pode-se dizer).
As luzes se apagam, a gritaria começa e Ele entra no palco, trajando calça preta, camisa branca, suspensórios e um paletó azul. Mal Ele surge e o Morumbi entra numa nova dimensão – aqui o tempo e o espaço são percebidos de outra forma. É incrível como Paul parece ter luz própria; o público simplesmente não consegue tirar os olhos dele.
O Morumbi vivenciava algo muito próximo a uma experiência de hipnose coletiva. Todos estavam sob controle do velho Macca, que cantou, tocou tudo que tinha direito, conversou em português, correu, pulou, brincou e até levou um tombo (quando deixava o palco, no fim do show, ele tomou uma queda, transmitida ao vivo pelos telões de altíssima definição).
O que falar da música? Na boa, uma pessoa que tem o catálogo que ele tem não pode ser chamado de nada menos do que gênio. Três horas de show, três horas de canções que definiram a música popular do século XX.
Ele abriu a apresentação com a arrasa-quarteirão “Venus and Mars/Rock Show”, emendou com a clássica “Jet”, e então tome “All My loving” no meio da cara… Enquanto isso o público gritava e chorava. Alguém abriu um túnel do tempo que nos levou direto à Beatlemania, com direito a garotas escandalosas e tudo. Não importava qual música estava tocando, o público cantava junto em uníssono. “Eu ia pedir que vocês cantassem esta música comigo, mas vocês já estão cantando todas as canções mesmo sem eu pedir”, falou Paul, arrancando gargalhadas de todos, antes de mandar “Ob-La-Di, Ob-La-Da”.
Além de ser um músico, compositor e cantor fenomenal, Paul ainda se cercou de uma banda que beira o ridículo de tão boa. Sem exageros, Abe Laboriel Jr. é um dos melhores bateristas da história do Rock n’ Roll (ele inclusive está sendo cogitado para ocupar o lugar de Chad Smith na nova turnê do Chickenfoot), além de ser uma figura – a dancinha dele durante “Dance Tonight” é sensacional! Rusty Anderson (guitarra), Brian Ray (guitarra e baixo) e Paul “Wix” Wickens (teclado) são mestres no que fazem. Nada de virtuosismos desnecessários. A ordem do dia é obedecer à música; se ela requer um arpejo na velocidade da luz, assim será. Se ela precisa de um acorde o tempo todo, então é assim que vai ficar.
No palco, Deus fazia o papel de um mágico, encantando os olhos do público como se fossem crianças num circo. A diferença é que aquele mágico não utilizava de truques. Ali, a magia era de verdade. “Hey Jude”, e “Live and Let Die” fizeram o Morumbi (o bairro, não o estádio) tremer. Nesta última, fogos de artifícios saíram da parte de cima do palco, anunciando que o fim estava próximo. Após dois bis, Paul manda um medley de “Sgt. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band (reprise)/The End”, dando fim ao primeiro show.
Mais uma olhada em volta, e adivinhe? As pessoas choravam, gritavam, se abraçavam… Todos ali sabiam que haviam presenciado algo especial. Mesmo quando Ele se mostrou mais mortal do que se imagina, tropeçando e indo ao chão, enquanto deixava o palco, a sensação era de que havíamos experimentado algo que não é deste mundo, como se por algumas horas pudéssemos sentir a genialidade e a grandeza de um artista que mudou o mundo.
Depois disso, o público aos poucos saiu do estádio, e a viagem do céu ao inferno foi bem rápida: trânsito caótico, taxistas explorando todo mundo, exaustão… Mas tudo valeu à pena. Passaria por tudo isso novamente (como, aliás, passei no dia seguinte).
Segunda-feira, 22 de novembro: é o dia do segundo show de Paul McCartney em São Paulo. Desta vez fui de arquibancada azul, já que previ que estaria moído do dia anterior. A jornada para a terra prometida começou às 16h30, quando fui me encontrar com uns amigos para seguirmos juntos, e a chuva que estava caindo me deixou ensopado.
Pegamos um micro-ônibus para o Morumbi que me fez concluir que só precisaria ter aprendido nove leis de Newton no colégio, já que dentro do ônibus dois corpos estavam ocupando o mesmo espaço. Descemos perto do estádio e a primeira parada tinha que ser para comprar uma cerveja – urgente! Após a breja e umas fotos, nos separamos (eles iam de pista e eu de arquibancada azul).
Por volta das 18h30, já estava no meu lugar, esperando o show. De repente a chuva voltou (eu já tinha secado), e desta vez veio pra valer. Do nada todo mundo tirou sua capa plástica para se proteger da chuva, e eu fiquei lá, me encharcando mais uma vez… Um pobre diabo. Tudo por Paul McCartney…
Novamente às 21h40 (lembram da pontualidade escocesa?) o show começa, e pensando nas pessoas que tinham ido no dia anterior, Macca mudou seis músicas do repertório. Logo de cara, abriu o show com “Magical Mistery Tour” ao invés de “Venus and Mars/Rock Show”. Fantástico! A noite ainda traria “Got To Get You Into My Life”, “I’m Looking Through You”, “Two Of Us”, “Bluebird” e “Letting Go”, que haviam sido deixadas de fora no primeiro show.
Mais uma vez o ex-beatle se mostrou uma divindade. “Tudo bem na chuva?”, ele perguntou ao público. Para completar com “chove chuva”, em português, fazendo todo mundo cair na gargalhada. A resposta da platéia ao show foi algo de sobrenatural; até os vendedores ambulantes, após o show, comentaram que o público cantou muito alto. Deus e seus fiéis estavam em sintonia, num transe Rock n’ Roll, que deve ter deixado John e George orgulhosos – onde quer que estejam.
O show então seguiu o mesmo roteiro do dia anterior: hinos, gritos, choros, abraços… As homenagens a John Lennon e George Harrison são de arrepiar! Impossível ficar passivo nestes momentos. As imagens no telão durante “Something” te deixam paralisado, esperando a rajada final que te levará para o lado Dele no paraíso beatlemaníaco.
Novamente “Sgt. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band (reprise)/The End” fecha a noite de culto, deixando todos meio que anestesiados. Eu só queria voltar para casa e dormir, assim teria certeza de que tudo não fora um sonho.
Neste momento, com a voz rouca, dolorido da cabeça aos pés, escrevo estas linhas como um apóstolo contribuindo com algumas páginas da bíblia. Ninguém me falou dos milagres; eu os vi os com meus próprios olhos. Ele não transformou água em vinho (quem precisa disso? Se eu quiser vinho, eu compro no mercado), ele não curou nenhum leproso (há hospitais para isso), e muito menos ressuscitou dos mortos (até porque ele nunca vai morrer), mas realizou milagre muito maior: por três horas ele fez pessoas de diferentes lugares, diferentes culturas, diferentes crenças e ideologias serem plenamente felizes e em paz.
Quem sabe um dia, quando finalmente criarem o McCartnismo, minhas experiências não estejam imortalizadas na nova bíblia?
Aliás, esse papo de Deus e Beatles me lembrou uma piada: um beatlemaníaco morre e, chegando no céu, ele escuta uma voz: “Eu sou Paul McCartney, eu sou Paul McCartney”. Apavorado com a possibilidade de Paul ter morrido, ele corre para o primeiro anjo e pergunta, quase sem fôlego: “Eu ouvi uma voz que dizia ser Paul McCartney. Ele morreu”? Então o anjo responde: “Ah, nem se preocupe. Isso é Deus com mania de grandeza”…